Rolou uma despressurização! E agora?

mascaras de oxigênio
Em caso de despressurização, máscaras como essa cairão automaticamente (foto: Carolina Bittencourt)

Um avião comercial, quando está em voo de cruzeiro, voa a uns 11, 12 mil metros acima do nível do mar. Naquela altitude, a pressão atmosférica é bem menor do que aqui, no chão. E isso é bom. O consumo de combustível é menor, o avião pode atingir maiores velocidades, passar por cima de tempestades, entre outras vantagens que podemos abordar outro dia. Mas existe um risco: e se acontecer uma despressurização? É exatamente sobre isso que vamos falar nesse texto.

Antes de tudo, vamos dar uma explicadinha sobre a pressurização da cabine. Como falei no parágrafo anterior, o avião voa a uma altitude média de 11, 12 mil metros, num ambiente muito inóspito para a maioria dos seres vivos. Por isso os aviões contam com cabines pressurizadas, para trazer conforto e segurança para os passageiros e tripulantes.

O ar que respiramos na cabine é renovado a cada três minutos. Ele é sangrado do motor das aeronaves (relaxa, você não respira um ar contaminado por fumaça ou outros poluentes), é pressurizado e é distribuído entre sistema de degelo, sistemas pneumáticos e a cabine de passageiros e comando (que recebe a maior parte do ar). Ele, então, passa pelos Packs, aparelhos que filtram, tratam e aquecem o ar, e é enviado para a cabine. O ar já saturado é eliminado da aeronave por uma válvula chamada outflow valve.

Uma curiosidade: a pressão interna do avião não é a mesma do nível do mar. A cabine é ajustada para a pressão de 8 mil pés de altitude (que dá aproximadamente 2400 metros, a pressão que sentiríamos em Machu Picchu, por exemplo). É por isso que muita gente sente o ouvido entupir no voo, é como se a gente estivesse subindo a serra depois de um fim de semana na praia. Mas se a serra fosse umas três ou quatro vezes mais alta do que ela é (a cidade de São Paulo, por exemplo, está a uns 700 metros acima do nível do mar).

Tá, e a despressurização? 

A primeira questão que temos de esclarecer é que a despressurização não costuma acontecer como nos filmes: uma rachadurinha no avião se torna um rombo gigantesco que suga pessoas, malas, carrinhos de comida (trolley, no jargão aeronáutico) etc… Esse tipo de despressurização é bem rara. Na verdade, há três classificações principais do problema.

A despressurização pode ser explosiva, quando acontece em menos de 1 segundo. Pode ser rápida, quando dura de 1 a 10 segundos. Ou pode ser lenta, quando dura mais de 10 segundos. Na verdade, a lenta é a mais perigosa, porque seus efeitos são sentidos mais lentamente e podem ser confundidos com outras situações, tipo sonolência.

Quando a pressão da cabine atinge aquela que sentiríamos a 4 mil metros de altitude (12 mil pés), as máscaras de oxigênio caem automaticamente do compartimento superior. Em um Boeing 737 ou Airbus da família A320 (os aviões que costumamos ver fazendo a Ponte Aérea), costumam cair de três a quatro máscaras de oxigênio em cada compartimento. Uma para cada passageiro sentado naquela fileira e uma extra para crianças de colo ou comissários de bordo que estejam passando ali no momento. É por isso que não se pode levar mais de uma criança de colo por fileira. Quem tem filhos gêmeos e já voou, pode ter passado por essa situação. Essas máscaras também caem nos lavatórios da aeronave e nas galleys, as cozinhas dos aviões, onde os comissários trabalham.

E quando a máscara cai, os passageiros e tripulantes devem vesti-la o mais rápido possível. Para você ter uma ideia, a uma pressão de 12 mil metros de altitude, o tempo útil de consciência é de 15 a 20 segundos. É por isso que a quarta máscara é tão importante para os comissários. Eles não teriam tempo de correr até a galley dianteira ou traseira, ainda mais com o carrinho de comida travando o corredor. O comissário senta no primeiro lugar que consegue e, se for preciso, no colo de algum passageiro.

Enquanto isso, na cabine de comando, os pilotos vestem também suas máscaras de oxigênio e emitem um código de emergência para o controle de tráfego aéreo local comunicando a despressurização. O objetivo é descer o mais rápido possível para o patamar de segurança, uma altitude que seja respirável sem oxigênio auxiliar (10 mil pés, que dá uns 3300 metros).

Aí que podem acontecer duas coisas.

A primeira é o espaço aéreo local estar vazio e o avião receber a autorização para descer ao patamar de segurança. O piloto vai fazer uma descida controlada, porém forte. E está aí mais um motivo pros comissários estarem bem sentadinhos com seu cinto de segurança.

A segunda é o espaço aéreo local estar movimentado, podendo haver um choque de aeronaves. E aí o controle de tráfego aéreo local manda os pilotos descerem até uma certa altitude, voarem ali por alguns minutos e descerem até o patamar de segurança.

Chegando ao patamar de segurança, os comissários de bordo iniciam o Walk Around Procedure. Isso é, eles fazem o seu trabalho de atender aos passageiros que precisam de ajuda. Esse atendimento pode ser com a aplicação do oxigênio terapêutico, acalmando e esclarecendo o que aconteceu às pessoas mais assustadas, ou remediando outras emergências que podem ter acontecido.

Apesar de ser um acontecimento assustador, a despressurização é um evento raro e  bem diferente do que Hollywood costuma mostrar. Além disso, tripulações do mundo inteiro são constantemente treinadas para proceder nesses casos. É sempre bom lembrar que é importante prestar atenção nas instruções de segurança antes da decolagem e ler o cartão localizado no bolsão da cadeira a frente.

Certo? Então aperte os cintos e tenha bons voos!

Agradecimento especial ao meu amigo Enderson Rafael (comissário de bordo, co-piloto na Gol, escritor e publicitário) que tirou dúvidas e revisou o texto.

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